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Caminhos da Reportagem discute os discursos de ódio contra as mulheres

publicado: 06/03/2026 14h20, última modificação: 06/03/2026 14h20

O programa premiado Caminhos da Reportagem apresenta, nesta segunda-feira (9), a edição “A Nova Roupa do Machismo”, que traz a discussão sobre a monetização e estimulação do discurso de ódio contra as mulheres na internet. A atração jornalística vai ao ar às 23h, na TV Brasil (afiliada em João Pessoa, TV UFPB, canal aberto 43.1), emissora pública da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

As estratégias são muitas para transformar mulheres em alvos digitais: memes, ameaças, dados vazados, deepfakes pornográficos. De acordo com os especialistas, o que acontece no ambiente virtual é reflexo da sociedade fora da internet e vice-versa, mas com um agravante: o discurso de ódio online gera engajamento, vende e rende lucros para misóginos e plataformas digitais.

Em 2025, o Brasil bateu todos os recordes em casos de feminicídio, com 4 mulheres mortas por dia, segundo levantamento do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP). Embora ainda não seja possível fazer uma correlação com o aumento do discurso de ódio na internet, é possível afirmar que a violência de gênero tem aumentado dentro e fora das telas.

Um levantamento do Desinfo.pop, da Fundação Getúlio Vargas, monitorou 85 comunidades virtuais de redes de ódio. Os pesquisadores verificaram que de 2019 a 2025 houve um crescimento de quase 600 vezes no compartilhamento de conteúdo misógino. Para a pesquisadora Julie Ricard, o diagnóstico é que há homens que se sentem atacados pelo poder conquistado pelas mulheres. “Eles estão quase numa missão de se proteger”, analisa.

A produção do Caminhos da Reportagem conversou com a musicista Bruna Volpi, que foi um desses alvos por ironizar o comportamento masculino nas redes sociais. Em uma das mensagens que recebeu, um executivo de uma empresa da qual a vítima era cliente disse que tinha os dados dela e a ameaçou. “Um homem que se ofende porque eu estou falando que nós merecemos viver é um potencial perigo para a sociedade”, afirma.

A Safernet, organização não-governamental referência de proteção de direitos digitais no país, percebeu um aumento de 220% no número de denúncias de crimes online de misoginia entre 2024 e 2025. “As mulheres não aceitam mais o destino que o patriarcado tinha legado a elas e isso é compreendido pelos homens como um ataque à masculinidade deles”, acredita a escritora Márcia Tiburi.

Lola Aronovich é vítima de masculinidade digital há mais de 15 anos, sofrendo ataques por seu blog feminista. Até mesmo um site foi criado para difamá-la e vazar seus dados. Dois homens foram condenados; um reincidiu e tornou-se o primeiro preso no país por terrorismo digital, hoje cumprindo 41 anos de prisão.

O caso impulsionou a criação da Lei 13.642/2018 (Lei Lola), que atribuiu à Polícia Federal a investigação de crimes digitais misóginos. Segundo o delegado Flávio Rolim, coordenador de Combate a Crimes Cibernéticos de Ódio, da Polícia Federal, são crimes de “discursos e postagens que normalizam a violência e fomentam práticas extremas contra a mulher, como homicídios e estupro”.

Avanços e recuos

Em janeiro deste ano, a Meta, empresa responsável pelo Facebook, Instagram e Threads, passou a permitir acusações de “anormalidade mental relacionadas a gênero ou orientação sexual”. “É um retorno ao tal conceito de ‘liberdade de expressão’ inicial quando a empresa foi criada para justificar uma menor moderação de temas que eles consideram de minorias”, explica Julie Ricard, pesquisadora em estudos de gênero. “A gente sabe que ódio gera engajamento e que essa é a máquina deles, de manter as pessoas conectadas o máximo possível”, complementa.

No Brasil, não há ainda uma lei que criminalize a misoginia. Mulheres, como a comentarista e analista de games Laysa Pinto Brandão, conhecida nas redes como Lahgolas, e a jornalista esportiva e narradora Luciana Zogaib sofrem com o discurso de ódio, principalmente por estarem em áreas predominantemente masculinas. “Ter uma legislação coibiria um pouco mais, a pessoa passa a pensar duas vezes antes de fazer aquele tipo de coisa, em especial os valentões que se acham acima da lei”, defende Laysa.

Ficha técnica

Reportagem: Ana Graziela Aguiar

Produção: Acácio Barros

Apoio produção: Hiago Rocha (TV Ufal)

Reportagem cinematográfica: JM Barboza

Auxílio técnico: Rafael Carvalho

Apoio imagens: Jefferson Pastori (SP), Eduardo Domingues (SP), Gilson Machado (RJ), Eusébio Gomes (RJ), Rodolpho Rodrigues (RJ), Eduardo Guimarães (RJ), André Rodrigo Pacheco (DF), Sigmar Gonçalves (DF) e Deco Monteiro (Ufal)

Apoio auxílio técnico: Caio Araujo (RJ) e Dailton Matos (DF)

Edição de texto: Carina Dourado

Montagem e finalização: Rivaldo Martins

Arte: Aleixo Leite

Sobre o programa

No ar desde 2008, o Caminhos da Reportagem é uma das produções jornalísticas brasileira mais prestigiadas pelo público e a crítica. No final de 2025, o programa da TV Brasil ultrapassou a marca de 100 prêmios recebidos. Os reconhecimentos atestam a relevância editorial, a qualidade jornalística e o compromisso da equipe com reportagens aprofundadas sobre os mais variados temas de interesse público.

Exibido às segundas, às 23h, o Caminhos da Reportagem tem horário alternativo na madrugada para terça, às 2h30. A produção disponibiliza as edições especiais no site http://tvbrasil.ebc.com.br/caminhosdareportagem e no YouTube da emissora pública em https://www.youtube.com/tvbrasil. As matérias anteriores também estão no aplicativo TV Brasil Play, disponível nas versões Android e iOS, e no site http://tvbrasilplay.com.br.

Acompanhe a programação da TV Brasil pelo canal aberto (afiliada em João Pessoa, TV UFPB, canal 43.1), TV por assinatura e parabólica. Sintonize: https://tvbrasil.ebc.com.br/comosintonizar.

Serviço

Caminhos da Reportagem - “A Nova Roupa do Machismo” – Segunda-feira (8), às 23h

Com informações da TV Brasil